Sertanejo ganha uma nova leva de cantoras poderosas

 16 de July de 2016

O gênero mais popular do Brasil sempre foi dominado por duplas masculinas. Hoje, porém, um novo contingente de artistas tem rompido o arraigado machismo do meio para cantar o amor não correspondido e a traição com voz feminina. A diferença de perspectiva que as cantoras sertanejas trazem ao gênero já é sentida pelas fãs. "Há mulheres de seus 30, 40 anos, casadas, cantando as músicas delas. Existe uma identificação", diz o produtor Luiz Eduardo Pepato. O valor do cachê das novas artistas é, em geral, um terço menor que o de uma dupla ou cantor de primeira linha. Mas elas estão crescendo. "Entre os dez shows sertanejos mais requisitados nas regiões Sul, Sudeste e Cen­tro-Oes­te, pelo menos quatro são de artistas do sexo feminino", diz Marcos Mioto, um dos promoters dos shows mais conceituados do mercado.

A vertente mais popular do sertanejo feminista é a da "sofrência". Suas principais representantes são a goiana (que faz mais sucesso no Nordeste) Marília Mendonça, 20 anos, a sul-mato-grossense Paula Mattos, 26, e Maiara & Maraisa, gêmeas ma­to-grossenses de 28 anos. Fazem letras doídas, que caberiam bem no repertório de uma Adele (aliás, elas têm a mesma silhueta rechonchuda que a cantora inglesa ostentava no início de carreira). Todas fizeram carreira compondo para outros intérpretes, o que as credenciou para o voo como cantoras. Marília foi gravada por Jorge & Mateus, João Neto & Frederico e até Wesley Safadão; Maiara & Maraisa foram gravadas por Gusttavo Lima e também pela dupla Jorge & Mateus. As duas irmãs ainda se uniram a Marília (e aos compositores Juliano Tchula e Daniel Rangel) para fazer Cuida Bem Dela, gravada por Henrique & Juliano. Paula Mattos, por seu turno, tem canções na voz de Lima, Marcos & Belutti e Thaeme & Thiago.

 

Roberta Miranda, que estourou entre as décadas de 80 e 90, é tida pelas cantoras atuais como um modelo. Cantava bem e compunha as próprias músicas e brigou contra o preconceito em um meio no qual predominam os homens. "Os diretores de gravadora me queriam apenas como compositora. Não levavam fé no meu talento de intérprete", diz Roberta, que cantou por catorze anos na noite de São Paulo até conseguir seu primeiro contrato discográfico (ainda ganhando menos royalties que os homens). Hoje, ela pode se vangloriar: "Vendi 1,5 milhão de cópias. O pessoal perdeu até as impressões digitais de tanto que ensacou o meu LP". Roberta Miranda agora aposta em uma nova cantora, Maria, intérprete mineira que participa de seu álbum de duetos. Por muito tempo, porém, ela era uma flor rara no matagal sertanejo. O sucesso da autora de Majestade, o Sabiá e Vá com Deus incentivou as companhias a procurar outras intérpretes do sexo feminino. Ninguém de relevo surgiu até que o bloqueio fosse rompido pela mineira Paula Fernandes, que ficou famosa ao dividir o palco com Roberto Carlos em seu especial de fim de ano em 2010. "O machismo existe desde que o mundo é mundo. Mas sempre tive uma boa recepção entre os homens do meio sertanejo, que me convidam para parcerias. Isso é sinônimo de garra, luta e honestidade", prega Paula.

 

O mundo do entretenimento demorou para absorver o talento das sertanejas. Entre os empresários, era corrente a visão preconceituosa de que é mais complicado trabalhar com mulheres. "Cheguei a ouvir de um empresário: 'Menstruou, não faz sucesso' ", acusa Maraisa. "Hoje ele está à procura de cantoras para seu escritório. Aos poucos, esses entraves estão desaparecendo. Hoje há até profissionais que se especializam em auxiliar cantoras. O parananese Luiz Eduardo Pepato começou nos discos de Luan Santana e Gusttavo Lima, mas virou o disco e agora investe na ala feminina.: ele produziu os últimos trabalhos de Maiara & Maraisa e de Marília Mendonça e está trabalhando nos próximos lançamentos de Wanessa Camargo, Paula Mattos e da novata Fernanda Costa. Pepato reconhece que as meninas requerem um pouco mais de tato. No entanto, aponta qualidades que estariam em falta entre os homens. "Elas escutam mais a gente, são mais abertas às novas ideias", diz. Muitas vezes, o trabalho exige uma psicologia, digamos, heterodoxa.

 
Fonte: VEJA

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